Desde o início dos tempos, perguntamo-nos sobre a diferença entre o “ser feminino” e o “ser masculino”, mas, na verdade, essa separação é fruto de longas décadas de construções sociais, criadas a partir de mecanismos destinados a objetificar, controlar e minimizar a forma como cada indivíduo deve agir e se comportar. Simone de Beauvoir, um dos grandes nomes da filosofia feminista, escreveu em sua mais famosa obra, O Segundo Sexo, que ser mulher não depende somente da biologia, pois, desde pequenas, a sociedade patriarcal impõe como devemos nos vestir, comportar e agir. A escritora ainda reforça essa ideia ao afirmar: “Não se nasce mulher, torna-se mulher.”
O Brasil é tido como um país rico e diverso em miscigenação cultural, mas o que o faz ser classificado como tal decorre, em grande parte, das mulheres indígenas e negras africanas, que, durante o período colonial, serviam para satisfazer os desejos dos senhores e realizar as mais diversas formas de trabalho dentro e fora das fazendas. De acordo com o pensamento do filósofo e sociólogo alemão Friedrich Engels, em sua obra A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, destaca-se que, com a Revolução Neolítica e a sedentarização do trabalho, as cidades passaram a acumular riquezas, propriedades privadas, terras férteis e excedentes. Então, surge a necessidade de passá-las a um herdeiro; assim, os homens passam a desenvolver mecanismos para garantir que os herdeiros sejam biologicamente seus. Desse modo, obtêm o controle da sexualidade feminina, do casamento, da reprodução e da mobilidade da mulher. Em outras palavras, o corpo feminino passou a ser regulado porque estava diretamente relacionado à transmissão de patrimônio. Assim, surgiram práticas como casamento arranjado, vigilância da virgindade, punição ao adultério feminino e confinamento ao espaço doméstico. Com isso, o patriarcado baseia-se em uma estrutura histórica de poder que reforça a autoridade masculina e a subordinação feminina.
Dessa forma, a moda surge como um mecanismo arbitrário de controle sobre o que a mulher deve vestir e sobre a maneira como se comporta em espaços públicos. Um dos maiores contrastes acerca do papel da mulher na sociedade foi a forma como a indústria cinematográfica direcionava a imagem de Marilyn Monroe e Audrey Hepburn. Monroe era vista como um símbolo de sensualidade, desejo masculino e da ideia de “loira sedutora”. A indústria de Hollywood explorou intensamente essa representação por meio de figurinos justos, maquiagem marcante, poses provocativas e papéis de mulheres ingênuas, porém altamente sexualizadas. Em oposição, temos Audrey Hepburn, símbolo de elegância, feminilidade e sofisticação, frequentemente associada a papéis de mulheres discretas, dignas de respeito e com aquele visual clássico, marcado pelas criações de Hubert de Givenchy.
Nesse contexto, autoras como Angela Davis, Simone de Beauvoir, Silvia Federici, Heleieth Saffioti e Joan Scott possibilitam compreender como a subordinação feminina foi historicamente construída e legitimada por mecanismos sociais, econômicos, políticos e culturais que controlaram a sexualidade, a mobilidade e a autonomia das mulheres. O patriarcado, nesse sentido, apresenta-se como uma estrutura histórica de poder que não apenas consolidou desigualdades entre homens e mulheres, mas também perpetuou formas distintas de opressão atravessadas por raça e classe.
Xoxo, Isa Knebel